Crítica: Estrelas Além Do Tempo (Hidden Figures)

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Em 1961, o mundo vivia no auge da Guerra Fria.
A Guerra Fria teve início, logo após a Segunda Guerra Mundial, e foi marcada pelo embate entre, EUA contra a União Soviética (hoje Rússia) por hegemonia política, econômica e militar de todo o planeta. 
Dentro dessa Guerra, havia uma disputa acirrada entre as duas nações, por avanços e conquistas e, por tanto, consolidações tecnológicas de caráter espacial. A chamada 'Corrida Espacial'.
No entanto, nos EUA, ocorria paralelamente um forte embate dos Direitos Civis americanos, caracterizado em muito pelo conflito dos negros em obter direitos iguais sem segregação. Foi o período em que ativistas como Martin Luther King e Malcolm X se eternizaram com suas falas e ações.

E, é nesse cenário hostil aos negros americanos, que "Hidden Figures" - (em tradução livre "Figuras/Personalidades Escondidas") e que veio traduzido como "Estrelas Além do Tempo" ; se situa. Mostrando a batalha por direitos trabalhistas justos, contra o sexismo, machismo e racismo de três mulheres negras e matemáticas, cujo trabalhos foram essenciais para a vitória dos EUA nessa corrida espacial, bem como, na conquista por direitos de todas as mulheres, mas que até hoje tem seus nomes desconhecidos nos livros de história.

Dirigido por Theordore Melfi, que assina o roteiro com Allison Schroeder, "Estrelas" é baseado no livro "Hidden Figures: The Story of the African-American Women Who Helped Win The Space Race" (Figuras Escondidas: A história das mulheres afro-americanas que ajudaram a ganhar a corrida espacial) de Margot Lee Shetterly.
Logo no início somos apresentados a pequena Katherine Goble, menina negra que possui um QI acima da média normal, principalmente para fazer cálculos complexos. Assim, seus professores decidem recomendar a seus pais que a coloquem numa escola para negros super dotados onde ela possa desenvolver melhor essas qualidades. Anos mais tarde vemos Katherine Goble, agora adulta, e vivida por Taraji P. Henson, rumo a mais um dia de trabalho na Agência Espacial Americana (NASA) ao lado de suas duas melhores amigas e colegas de trabalho, Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe); onde ambas exercem a função de "Computadoras" uma espécie de designação que associa mulheres negras a computadores humanas para digitar e revisar cálculos e relatórios.

No entanto, Katherine, Dorothy e Mary não almejam apenas serem meros objetos humanos. Suas capacidades estão alem. O filme discorre assim pela vida dessas três mulheres que tentam conquistar seu lugar ao sol por direito, dentro da agência contra todo o sexismo e racismo que ha. Essas computadoras nem se quer podem trabalhar no mesmo ambiente que as brancas. Ou seja, o filme retrata como a batalha por igualdade é extremamente mais complexa e difícil para a mulher negra. O filme aborda com maestria através de sutileza e naturalidade as diferenças de tratamentos entre homens e mulheres. E como esse mesmo tratamento se diferencia mais ainda, entre homens e mulheres brancas contra mulheres negras. Assim é brutal mas real quando, vemos logo no inicio da projeção a supervisora de departamento vivida por Kristen Dustin surgir na ala destinada as trabalhadoras negras, dizer a uma das personagens que mulheres jamais devem usar roupas mais curtas que os joelhos, usar apenas perolas, se portar de tal forma xis e y, e contrastar essas restrições sociais por gênero e economia as condições inferiores da personagem negra. Bem como em seguida, a mesma branca virar e dizer a esta que jamais uma negra foi designada pra função que ela estava sendo remanejada, por tanto ela não deveria decepciona-la. Para logo em seguida paralelamente ela mostrar a outra personagem negra, que ela jamais seria uma supervisora por ser negra, ainda que já exerça tal função, enquanto a outra adentra uma sala repleta de homens brancos que de imediato ao ver sua presença lhe entregam uma lata de lixo confundindo - a com uma faxineira.

Nesses aspectos o filme é certeiro em mostrar de forma crua e, como era naturalizado a segregação racial. Claro que ela permanece ate hoje, mas de forma velada, onde ali era escancarada e permitida.

O filme se passa na Langley Research Center na Virginia, o principal centro de pesquisas da NASA na época, onde ambas as três trabalhavam no centro de processamento de dados que ajudariam a mandar o astronauta John Glenn (Glen Powell) ao espaço e contornar a órbita da Terra. A Virginia era um dos Estados onde mais havia Segregação Racial nos EUA.
Ônibus pra negros. Bebedouros. Talheres. Bibliotecas. Banheiros. Ate mesmo cafeteiras eram separadas e sempre tudo em qualidade inferior. Onde branco respirava, negro não podia chegar perto. Assim, mesmo em ambientes públicos, haviam cadeiras destinadas a negros no fundo dos ônibus por exemplo, para que nos não nos misturássemos.

Isso era 1961. Sim, à apenas 56 anos atrás.
É interessante por exemplo, cenas como a que uma branca ao tentar se desculpar dizendo a uma negra que ela não tem nada contra ela (logo não é racista, em sua lógica), a outra negra de forma simples, e direta diz "sim, eu sei que você pensa que não tem". Isso diante da branca num espelho de banheiro. Essa cena retrata exatamente a dinâmica e simbolismo atual onde o racismo ainda é tratado apenas como algo direto e violento, quando na verdade esta tão enraizado, que nem os próprios brancos tem consciência de quando e como o cometem, ou mesmo os negros, não percebem quando sofrem. Da mesma forma por tanto é significativo (e somente essa cena justifica Spencer estar concorrendo ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, já que sua atuação é apenas correta), quando está recebe uma notícia que esperava a anos das mãos de uma branca que a hostilizava e esta, a trata formalmente com igualdade ao chama-la por seu sobrenome. Spencer transmite no olhar comedido toda a comoção e arrebatamento intenso dessa conquista pra si e, pra todas as negras à época justamente nas lagrimas que evita verter.
Da mesma forma significativa é belo, a passagem em que surge uma mãe colocando suas três filhas pra dormir e duas delas perguntam se ela ira ate a lua. Quando ela responde que não, que seu trabalho era possibilitar que um homem branco corajoso pudesse ir. E a criança responde que ela deveria ir no lugar do homem, que ela também podia. Entregando um desenho onde ela desenhou a mãe negra a bordo de uma espaçonave.
Com uma trilha assinada por Pharrell Williams carregado de soul como não podia deixar de ser, o filme ainda se beneficia por uma ótima fotografia e direção de arte que contrasta bem os ambientes fechados com os abertos e estes em oposição aos destinados a brancos e a negros, para compor toda essa segregação existente. Notem como por exemplo, o figurino das três protagonistas sempre se destaca entre o restante do elenco, com cores vibrantes. Ou como, mesmo nos ambientes segregados, a fotografia possui cores quentes para mostrar a União dos negros diante da opressão. Ou ainda como no inicio do filme a protagonista ainda criança surge indo rumo a conhecimento atravessando pela objetiva da câmera uma orla de arames farpados que se assemelham a uma prisão simbólica.
Mas, se o filme faz bonito no quesito étnico e de gênero, ele peca e faz feio por não ser nada sutil quanto ao seu nacionalismo exacerbado e seu paternalismo branco gritante. Ainda que realmente tenha sido dessa forma à época, é sistemático que todas as transformações de ignição dessas três personagens negras, surjam graças a uma aparente bondade de pessoas em sua maioria homens brancos. Assim, quando uma das protagonistas almeja conseguir permissão pra cursar uma faculdade de homens brancos para poder tentar ser a primeira negra engenheira, vemos a bondade do jurista branco em conceder isso a ela. Ou quando outra protagonista por ter de sofrer tanto para andar quase um quilometro a pé para usar o único banheiro de negros, todos os dias, incluindo de baixo de chuva, seja justamente pelas mãos de um branco bonzinho que esse protocolo é quebrado. Alias, o mesmo branco vivido por Kevin Costner que sempre a "salva" por ser um dos únicos a tentar mudar algo nisso mas, para beneficio do programa espacial já que a mente e capacidade dela se prova indispensável.
O nacionalismo exacerbado grita quando vemos Kennedy retratado de maneira quase endeusada constantemente, e quando ate mesmo os "heróis" americanos astronautas se provam curiosamente extremamente humanos ao tratar com respeito essas mulheres negras.


Isso trás também a tal da meritocracia em pauta, algo continuamente jogado e embutido aos negros e as mulheres - e a toda classe de minorias sociais como um todo - tão amparado por Hollywood que incomoda deveras nos tempos atuais por sabermos que essa falácia jamais foi ou é verdadeira. A impressão que dá é a de que essas três mulheres "venceram" em seus nichos, por terem se esforçado o triplo de qualquer outra pessoa e por isso mereceram as "vitorias" no final. Claro, que a trama se baseia em fatos reais, mas falta uma não romantização na jornada aqui, para desvincilhar esse pensamento retrogrado e limitante que só massifica o próprio racismo e sexismo em busca de igualdade e equidade de gênero e etnia. E obvio que aqui existe justamente para explicar e garantir a vaga no Oscar. Uma característica quase que de exigência a seus padrões. Assim o filme acaba tendo ares de "Histórias Cruzadas" que sofre do mesmo embuste. Quando o filme lida mais com o suposto sacrifício e luta de minorias para conseguir um lugar ao sol, sem refletir de fato o do porque essas minorias precisam ter que se esforçar tanto, e por tanto assim, acabar discutindo sobre o porque são minorias sociais, há um erro de condução de militância e ativismo. Por que acaba que se torna um filme de redenção para os próprios brancos se 'desculparem' entre si pelo que causaram, e não aos negros por exemplo.
Sofrendo ainda por uma estrutura frágil de condução de narrativa, o roteiro peca por não saber justamente dar a mesma importância da trama as três mulheres retratadas, se concentrando apenas em uma. Não que isso prejudique nosso envolvimento com ambas, mas isso mostra a fragilidade do roteiro em conseguir desenvolver esses personagens de maneira orgânica em pouco mais de duas horas de projeção. A sensação que fica é a de que deveriam realizar três filmes separados. Um para cada uma delas.
Nada disso porem atrapalha na experiência e beleza e mensagens fortes desse longa, que ainda que surja como eco, na verdade nada mais é do que uma voz tímida na verdade, de um voo e um passo que nem os americanos e nem a humanidade ainda conseguiu alçar. Racismo jamais deixou de existir. Ele ainda esta vivo e acorrentado em amarras que nem mesmo os mais complexos teoremas matemáticos são capazes de explicar ou justificar.
Um filme ainda necessário.
Recomendo.



Como curiosidade: o ator Mahershala Ali, (de 'House Of Cards') e que também esta presente aqui em "Estrelas Além do Tempo", venceu no ultimo dia 29 de Janeiro, o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante pelo filme “Moonlight”, no SAG Awars, prêmio do Sindicato de Atores Norte Americanos.

O elenco inteiro do filme Estrelas Além do Tempo, também levaram a principal categoria do SAG Awars, na categoria Melhor Elenco.
O Filme concorre à 3 indicações no Oscar 2017, incluindo o Oscar de Melhor Filme e Melhor Atriz Coadjuvante, através de Octavia Spencer.

(Como nota, é importante salientar que tal qual o filme, eu uso constantemente a segregação de termos entre o 'branco' e o 'negro' ao escrever a trama, justamente para que se compreenda a lógica da narrativa adotada pelo diretor - branco por sinal -, que constantemente parece querer mostrar, jogar na nossa cara como aquela sociedade era/é preconceituosa e desumana. Isso ocorre para que não se esqueça nem por um segundo sobre o que o filme realmente trata, e o como é a percepção de todo e qualquer negro até hoje diante da sociedade. Se quem não é branco não consegue perceber tais olhares, falas, ações, e etc, é risível ate, que pro negro ele sente e percebe 24 horas por dia durante toda a vida aquilo escancarado contra si. E nisso, o filme acerta. Pois, com cerca de uma hora de projeção muitos que assistem se sentem incomodados ou ate consideram piegas essa constante lembrança da segregação em tela. E é justamente isso que ele como filme que aborda tal assunto, precisa causar.)

- O Filme tem estreia prevista para o dia 02 de Fevereiro de 2017 no Brasil.


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