Moonlight, um filme onde "Todo crioulo é uma estrela!"

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"Existem muitos negros por ai sabe? Muitos mesmo. Muitos negros como nós, pelo mundo todo. Nós fomos os que surgiram primeiro, mesmo que a regra do mundo tenha virado outra."

"Minha vó me dizia que negros, bem negros como nós, quando passamos o dia todo sob o sol, acabamos ficando azuis. Brilho azul da luz da lua."

Acabei de assistir ao filme "Moonlight" (que veio sem tradução mas com subtítulo "Sob a luz do luar") dirigido e roteirizado por Barry Jenkins, Moonlight é um verdadeiro "ode de estudo de personagem não sobre um negro, mas sobre vários ao redor do mundo, sem contudo soar militante ou ativista ainda que o seja, da maneira mais desafiadora por si só: sendo artístico. 


O filme narra em três atos ("Moleque", "Chiron" e "Nego" - 'Little', 'Chiron' e 'Black' do original) à vida de Chiron, garoto negro e pobre e mirrado vivido de forma sensacional por Alex Hibbert, em 1980. Numa Miami que vivia a tomada do crack nas ruas. De comunidade igualmente pobre acompanhamos sua vida permeada por medo e apreensão com sua mãe viciada e solteira. E aqui é importante destacar a atuação do pequeno Alex que de forma trágica consegue retratar todo o mal cuidado e desamparo no trabalho de expressão corporal que compõe. Quase que totalmente mudo, conseguimos sentir cada emoção e intenção de seu personagem pelo olhar, pelo tremer dos olhos, pela curvatura dos ombros. Pelo andar arrastado. E quando a fala surge, vem carregada ora por exasperação e ora por medo. Pra no segundo seguinte demonstrar uma espécie de fúria reprimida. É impressionante.

Depois acompanhamos sua adolescência onde somasse a sua vida, as descobertas sobre sua sexualidade conturbada e perseguições justamente por causa dela. E aqui o ator por mais que caia no quase caricato, é admirável a composição de tentar representar a mesma repressão com o corpo.

Depois, nos dias de hoje, acompanhamos Chiron já adulto (e aqui não contarei como para evitar entregar a trama) vivido pelo impressionante (e meu mais novo crush por que "nossinhôra") ator Trevante Rhodes, que era atleta e faz a melhor estreia possível como ator. Ele evoca nuances de intensidade na composição de seu Chiron de tal maneira que poderíamos pensar que está interpretando a ele mesmo. 

São recortes tal qual fases da lua.

Como da pra perceber, Moonlight tem sua força não na técnica mas sim no que aborda. Ainda que nela -na técnica, ele faça escola e nos apresente uma fotografia de encher os olhos onde as cores e a iluminação estabelecem quase que parâmetros para demarcar não só o ritmo mas, a própria narrativa. É um filme que fala sobre reconhecimento. Sobre a busca de se conhecer em cada identidade social e pessoal que a vida exige de si. Mas o que é curioso e intrínseco é que o diretor opta em não retratar isso de maneira jamais obvia ou fácil.

O filme possui 1h50 aproximadamente e consegue lidar com a questão da influência do meio social no desenvolvimento do negro no mundo, racismos, a questão das drogas entre usuários e traficantes, o papel da cadeia no processo que acomete a maior parte da população negra, e o por que disso ser um problema estrutural e não individual, a questão da figura masculina em todos seus aspectos desde performances a simbolismos, a forças, ate a paternidade e masculinidade na sexualidade. E principalmente o peso desta para um homem negro de periferia.

Tudo isso é mostrado através de gestos, através de silêncios. Através de diálogos pontuais e precisos. Nada escrachado. Nada em tom de discurso. Tudo cru. É o Boyhood Preto. Só que como tal, com uma qualidade a mais: compreender na pele aquilo que se esta mostrando. E isso é de uma força gigantesca.

No meu caso, a identificação se torna muito particular. Pois tal qual Chiron, sou um indivíduo preto e gay. E ha uma particularidade muito singular dentro da própria comunidade como ha fora dela de forma universal, em que essa identidade sexual significa. Ha um peso e um confronto sistemático próprio que o filme consegue transmitir bem aos olhos atentos.

Ele segue o beabá da cartilha. Principalmente no que diz respeito a iluminação. E talvez aqui ela seja papel fundamental. E o título não possua apenas um sentido de poesia estética afinal.


A luz da lua em tons ora azuladas e ora alaranjadas contrapõem ao vermelho e ao roxo dos perigos e das magoas que iluminam CHIRON ao longo da vida. Ao longo de sua busca de descobrir quem ele é. Interessante por exemplo, como que a cor azul domina a paleta de cores a partir do momento em que a história que dá título a obra é contada. A partir dali o filme todo assume tons de azul quase que constantes, representando a busca por identidade e entendimento de seu eu mais profundo. Na adolescente o amarelo meio alaranjado domina. Ainda que o azul permaneça e essa é uma sensibilidade para demonstrar, através dessas cores como que a identidade e essa busca mida na adolescência. Não por acaso o protagonista escolhe ser chamado pelo nome que tem. Para se reafirmar quanto indivíduo. Já quando ele assume a identidade black e aqui, o nome com letra maiúscula não é qualquer coisa, uma vez que se na infância a busca era essencialmente sobre da onde ele veio e se pra onde iria, enquanto na adolescência era uma busca por auto afirmação e individualidade. Na vida adulta a questão do ser negro dentre todas suas outras características identitárias possui uma força a mais. E aqui se fundem o amarelo alaranjado com o retorno do azul, culminando num roxo com toques avermelhados. É a fusão do eu menino e do eu adolescente tentando formar o eu adulto. Outro ponto curioso é a angulação das câmeras. A forma como parece que vemos aquelas vidas retratadas de perto e vez ou outra com grandes angulares. Como se o diretor quisesse colocar em evidência aquelas vidas o espectador querendo ou não. Da mesma forma que sempre vemos eles de baixo pra cima. Aqueles negros são os destaques. O foco. E essa escolha narrativa é simbólica por si só. É o recorte da vida de um negro sem estereótipos. É cru. Da mesma forma que muitas vezes, vemos cenas com camera na mão que parecem deslizar sempre pra mesma direção. Dando impressão de fluidez. Mais uma vez, nada evidente, tudo sutil. E talvez seja justamente aqui que o filme peque um pouco. Mas, peque por nós não em si. Estamos acostumados a ver um tom épico e esmerado saltado aos olhos quando vemos uma obra com um roteiro tão bem apresentado. A sensação é a de que o filme poderia fazer mais pra mostrar aquilo tudo. Usar de mais artifícios e aparatos. Mas, a verdade é que não precisa. Essa é só a sensação no final das contas. Lembrando que o filme é baseado num roteiro de peça teatral (que jamais fora interpretada).

Um filme denso, tenso, bruto, e ao mesmo tempo sensível e poético. Que pode parecer simples aos olhos pequenos. Mas definitivamente se constrói gigante a quem consegue enxergar sua imensidão tal qual brilho do mar.


Outro aspecto interessante é sua trilha sonora que permeia de forma desconexa e em forma de quebras a narrativa - propositalmente - dotada de uma variedade de temas e gêneros "saborosos". Com direito ate a presença de Caetano Veloso. 

Representatividade sem esteriotipos em demasia. Recomendassimo. E desde já talvez uma das melhores obras da temporada. Para ficar na mente e se revisto varias vezes. A cada vez sob um luz diferente.

No mais, parece que o cinema ganhou um novo "Hello Stranger!". E ele é Black.

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