A vida (e o cinema) tem muito mais que "cinquenta tons de cinza"

Comentarios



“Nosce te ipsum” (“Conhece-te a ti mesmo”). A famosa frase é atribuída ao “Oráculo de Delfos” na antiga Grécia, e é a pedra angular da filosofia de Sócrates que, segundo relatos de seu discípulo Platão, o filósofo teria respondido à divindade solar (no caso, o deus Apolo) com outra célebre frase: ”só sei que nada sei”.

A vida tem muito mais que cinquenta tons de cinza. Mas o que tem a ver filosofia com os “cinquenta tons de cinza”? Na verdade, nada... ou tudo, pelo menos para mim. Já me explico.

O badalado livro em questão (e agora também cinematografado) “Cinquenta tons de cinza”, não li, pois não me convenceu o tipo de leitura, um romance rasteiro, bem ao estilo “Sabrina” ou Júlia” (se não me apetecia esse tipo de leitura na minha adolescência, imagina agora)entre uma inocente virgem de 20 anos (what???) e um “príncipe encantado (com “um quê de Marquês de Sade).

E, pior, muito mal escrito, confirmei isto ao folhear o dito cujo nas livrarias, e também lendo trechos de alguns parágrafos no idioma original em inglês na internet, e ainda li críticas de fontes literárias (nas quais eu confio) porque me recuso a perder meu precioso tempo (sou médica, cardiologista emergencista, sem tempo para futilidades e lixos comerciais), foi o suficiente para desistir do mesmo.

Em tempo: as pessoas confundem bestseller e blockbuster (sucesso de vendas e de bilheteria, no caso de livros e cinema, respectivamente) com qualidade literária e artística. Nem sempre um sucesso de bilheteria ou de vendas tem qualidade artística ou literária (e vice-versa), e isso é evidente no caso da trilogia dos tais cinquenta tons de lama.

Alguns me criticaram alegando que não posso questionar algo que não li ou assisti (pois me recuso a ver o filme também). Ora, seria o mesmo que ter que usar LSD ou crack para só então tomar conhecimento do efeito dessas drogas no meu organismo. E ainda ousaram me criticar dizendo que eu estou sendo pudica”, outros alegaram (exemplificandoque o filme “Império dos Sentidos”, dos anos 70, é muito “mais sádico e violento”.

Em primeiro lugar, não se trata de ser ou não pudica, mas... garota ingênua e virgem aos 20 anos de idade (como assim??) numa relação “sadomasô” com um grã-fininho, num filme escandalosamente comercial (haja visto que foi lançado em fevereiro, em pleno “Valentine's Day”, o Dia dos Namorados na América) como se fosse um novo “Romeu e Julieta do século XXI”, com censura de 16 anos (na verdade, as de 14/15 anos também têm acesso fácil ao livro e ao filme), num evidente apelo para menininhas adolescentes carentes e ingênuas...

Não, isso não é ser pudica, isso é simplesmente não se deixar ser imbecilizada por apelos comerciais, numa clara alusão para sermos levadas a consumir porcaria (sem falar na evidente deturpação do mesmo, ao abordar uma relação sadomasô como a coisa mais legal e natural do mundo” explicitamente voltada para consumo adolescente). Tanto que me faz lembrar de outro apelo, muito comum também na música, que é escancarado no ótimo vídeo do comediante canadense Jon Lajoie.

Em Pop Song”, Lajoie faz coreografias sensuais, ele mesmo travestido como cinco caras diferentes (para agradar às mais variadas adolescentes), e canta uma música hilária, ironizando os típicos hits comerciais imbecilizados que tanto vemos por aí (e este tom de cinza nada mais é que a versão literária e cinematográfica destes lixos comerciais).



Ou seja, este ridículo tom de cinza é tudo o que uma mulher não precisa nos dias de hoje. É um desserviço para as mulheres, principalmente para as mais jovens, ainda em formação emocional e intelectual. Tantas foram as batalhas, por tantas décadas, e ainda tão poucas as conquistas, e ainda vamos nos deixar subjugar por um reles espécime do gênero masculino?

As pessoas infelizmente (e isso vale também para os homens) ainda apostam a sua própria felicidade no outro, vivemos sempre na dependência do outro nos fazer felizes. E o romantismo de séculos atrás foi cruel com as mulheres, ao criar o mito do príncipe encantado e seu eterno cavalo branco, e as mulheres continuam transcorrendo décadas após décadas atrás dessa ridícula fantasia.

A protagonista virgem aposta toda sua felicidade no personagem charmoso, mas perverso, de nome Gray, de “Cinquenta tons de cinza”. É, no mínimo, um retrocesso, pois já devíamos ter aprendido que “esse príncipe vai virar um chato e acabar dando no saco” (“Malandragem de Cazuza e Frejat, na bela voz de Cássia Eller).

Há pouco tempo, um troglodita destes, da vida real, deu uma cotovelada no rosto de uma jovem brasileira que, por conta do impacto, a fez cair (e o tal simplesmente ficou a observar a cena numa frieza inacreditável) e esta quase perdeu a vida, sofreu traumatismo de crânio e hemorragia cerebral com sequelas irreversíveis. E a lei Maria da Penha”, com certeza, não foi criada a toa.



Em segundo lugar, o mundo está cheio de perversões, e o cinema tem mais é que mostrar que elas existem sim, mas nada a ver a comparação esdrúxula com o filme dos anos 70, o Império dos Sentidos”, pois o mesmo mostra uma relação sadomasoquista com uma ex prostituta, sem nenhum apelo romântico (nem mesmo comercial, e liberado apenas para maiores de 18 anos), bem diferente do contexto da virgem bobinha dos tais “cinquenta tons de lamaçal.



Ao invés do imbeciloide “porno-erótico tom de cinza”, prefiro leituras como as do francês Ollivier Pourriol, um professor de filosofia que usa o cinema como ponte para suas aulas e palestras filosóficas, que escreveu, entre outros, “Filosofando no cinema”, dando dicas de filmes (de qualidade) cujos temas abordam desejo e erotismo no telão

Filosofia, literalmente falando, significa “amor à sabedoria”. A filosofia busca estudar os problemas relacionados à existência e ao conhecimento, e conhecimento é poder, dizia o filósofo inglês Francis Bacon. Os filósofos sempre buscaram respostas para perguntas tais como quem somos, qual o sentido da vida, e sobre a existência (ou não) de um ser superior, acima do bem e do mal, regendo nossas vidas.

“Cogito ergo sum” (“Penso logo existo”). O filósofo Descartes nos convida a descartar (usando um trocadilho com o nome do filósofo) o que ele chamava de “convenção da vida real” para colocar em dúvida a existência do mundo e até de si mesmo.

E, se cogito ergo sum”, eu descarto (de novo o trocadilho) essa pseudo obra literária mal escrita e, como cinéfila cult” e cultame recuso também a assistir a essa merda cinematografada chamada Cinquenta tons de cinza.



Para quem não quer perder tempo com qualquer tom de cinza” e, como eu, deseja ler apenas boa literatura e assistir cinema de qualidade, inclusive sobre sadomasoquismo e outras perversões (porque não sou pudica, só acredito que tudo tem sua hora e idade para tomarmos conhecimento da realidade do mundo lá fora e, assim, cientes do que queremos, temos o direito do livre arbítrio como bem prega a tal da filosofia), aqui vão dicas de leituras e filmes que realmente têm qualidades artísticas.

Como dica inicial, cinéfila que sou, elucubrando sobre diversos assuntos como relações interpessoais, traição, desejos reprimidos, casamentos falidos, perversões sexuais, não pude deixar de me lembrar do erótico e inquietante “De Olhos Bem Fechados”  (título original “Eyes Wide Shut”), última produção do consagrado cineasta norte-americano Stanley Kubrick (“Laranja Mecânica”, “O iluminado”, “2001, uma Odisséia no espaço”).

O filme mergulha Tom Cruise e Nicole Kidman em uma trama desconcertante que fala sobre desejos (recalcados e não consumados, em sua maioria), fantasias sexuais (reprimidas em grande parte) e (in)fidelidade no casamento (em geral falido).

Na verdade, o filme começa bem ao estilo Kubrick, um verdadeiro gênio com uma inquietude ímpar, um exímio visionário, sempre disposto a demolir toda e qualquer concepção enraizada e pré-concebida, e que sempre voltou suas lentes para a alcova, filmando sem nenhum pudor a loucura, o descontrole, a ambição e as fraquezas humanas, e este “De olhos bem fechados” não é diferente.

Kubrick morre na virada do século XX/XXI exatamente uma semana depois de apresentar para a Warner a primeira cópia deste que seria seu último filme. Perfeccionista compulsivo, é bem provável que o diretor retocasse a obra antes de chegar ao público, que mais parece uma obra inacabada, pois o final da película (eu, particularmente, só não gostei do final) parece querer agradar mais ao estúdio do que ao próprio artista.

Porque o conteúdo supostamente “polêmico”, que os tabloides insistiam em publicar previamente ao lançamento da película, simplesmente não existe. O filme é, no máximo, tal qual seu diretor, desconcertante e inquietante. Uma congregação secreta, dedicada ao hedonismo e ao prazer sem limites é a única “polêmica” do filme, e até hoje a obra sofre acusações de “apologia e culto ao satanismo” e outras bobagens do gênero, esquecendo-se que o bom cinema é aquele que não esconde do público a realidade da vida, mostrando que no submundo existe realmente tais congregações.

Na época, gerou tanta polêmica que uma ridícula manipulação digital, por parte da censura americana, encobriu os órgãos genitais dos nus frontais femininos e cortou as cenas da famosa orgia dos figurantes mascarados (no Brasil foi exibida na versão original do diretor), que na verdade nada tinha de “caliente”.

Muito pelo contrário, Kubrick filmou cenas de coito extremamente gélidas e robóticas, denunciando uma sociedade reprimida e manipulada (os mascarados escamoteados) que, ironicamente, se revelou na prática, com a censura das cenas no mercado cinematográfico americano. No final, o que se vê na telona é uma reflexão sobre a hipocrisia do casamento e a natureza do impulso sexual.

E, a pergunta que fica, após assistir ao filme: é possível trazer à tona as mais inconfessáveis fantasias sexuais (e mulheres como a personagem da Nicole Kidman as têm, para desespero do personagem de Tom Cruise, e de quebra, um alerta para homens infiéis porém seguros de si em relação às suas mulheres, mas muitas delas, também como eles, nada fiéis) e depois voltar para o abrigo seguro da (in)felicidade conjugal


E se alguém está mesmo interessado em livros eróticos, recomendo os autores norte-americanos Phillip Roth, Paul Auster, ou então o próprio francês de onde foi gerado o termo sadismo”, o libertino Marquês de Sade, ou então o aclamado escritor britânico Ian McEwan, todos eles têm textos com temas “calientes”, com certeza muito melhor escritos que estes “cinquenta tons de lodo”.

O clássico da literatura erótica é o francês Historie d'O (A História de O) que foi escrito na década de 50, sobre uma relação sadomasoquista que se passa na França entre uma fotógrafa (livre, independente e bem sucedida e nada bobinha) e seu amante, e o interessante é que, apesar do tema, o livro foi escrito, em todo o seu conteúdo, sem nenhuma palavra obscena (o que, ao contrário, está recheado nos Cinquenta tons de lama, num evidente apelo comercial, escancarando a baixa qualidade literária).

A continuação da História de O recebeu o nome de “Retorno a Roissy” (no livro, Roissy era o nome do castelo onde uma sociedade secreta financiava sessões de sadomasoquismo). E ainda assim, não ficamos sabendo o verdadeiro nome de O., a protagonista da história.

O célebre escritor britânico Ian McEwan começou a sua carreira literária, tomando “emprestado” fórmulas dos romances góticos famosos no século XVIII e XIX, mas sempre inseridas num contexto contemporâneo.

A literatura gótica surgiu no final do século XVIII, na Inglaterra, e tinha como característica elementos ligados ao imaginário sobrenatural, profecias e maldições em meio a castelos medievais, com personagens melodramáticos, associados sempre a devassidão sexual, a loucura e a deformação de corpos.

Edgard Allan Poe e o Marquês de Sade são nomes famosos do universo gótico, o primeiro retratado no cinema em “O corvo” (com John Cusak como Allan Poe) e o segundo em “Os contos proibidos do Marquês de Sade” (com o ótimo ator Geoffrey Rush, no papel do escritor libertino).



O britânico Ian McEwan (às vezes chamado “Ian Macabro”, por conta dos conteúdos góticos, altamente perturbadores, de suas primeiras obras literárias) tem um estilo próprio e inigualável de escrita, com doses precisas e bem colocadas de suspense, drama e comédia, que convidam o leitor a manter uma leitura ininterrupta, porque prazerosa.

Com uma extensa carreira literária de sucessos (de romance em romance foi mudando seu estilo, saindo do universo gótico), sempre com histórias envolventes sobre intrigas familiares, amores ilícitos e corações partidos em tempos de guerra, é hoje um dos autores preferidos dos diretores, e frequentemente, vem sendo “adaptado” tanto para o teatro como para o cinema.

Numa das suas primeiras obras de sucesso, “O jardim de cimento”, o autor aborda uma história contemporânea e perturbadora, com uma frieza quase mórbida (daí o apelido “Ian Macabre” pela crítica inglesa), com elementos góticos que poderiam parecer inverossímeis à primeira vista, já que se trata de uma história contemporânea.

“O Jardim de cimento” (“The cement garden”) foi fielmente adaptado para o cinema na década de 90, com o mesmo título, e conta a história de quatro irmãos (um casal de adolescentes, uma irmã pré-adolescente e o irmão caçula ainda um menino) que vivem com seus pais, isolados em um casarão (todos os parentes já faleceram), em meio a um bairro decadente, quase sem vizinhança ao redor.

Narrada por um dos irmãos adolescentes, a história começa com o jovem relembrando a morte repentina do pai, e como os jovens passam a ter que se virar para sobreviver sozinhos numa casa após a morte dos seus progenitores (após a morte do pai, a mãe vai definhando até vir também a falecer), e se vêem obrigados a não revelar a ninguém sobre a morte da mãe, sob o risco de serem enviados para adoção e a casa ser invadida por estranhos (a casa que agora “abriga” a mãe sigilosamente sepultada por eles).

“O jardim de cimento” foi protagonizado pela atriz Charlotte Gainsbourg (melhor atriz de Cannes por “Anticristo”, e atriz coadjuvante de “Melancolia”, de Lars Von Trier) e foi fielmente adaptado, seguindo a obra literária em todos os seus pormenores, com seus personagens envoltos em acontecimentos bizarros, desejos proibidos e incestuosos e mentes doentias.



Ao ler o romance (ou assistindo ao filme) a reação do leitor é estarrecedora, de atração e repulsa ao mesmo tempo, pelas passagens e acontecimentos bizarros envolvendo sexualidade, incesto e corpos em decomposição (descritos com tamanha frieza e certo distanciamento pelo escritor, na “pele” do jovem narrador) que deixam os leitores atônitos e perplexos.

Mas o autor consegue fazer parecer que tudo que acontece àqueles jovens irmãos não poderia ser diferente, que não havia outra saída para eles, aquele destino estaria fatalmente traçado para aquelas crianças solitárias e perdidas, num mundo cruel e desumano de adultos mais solitários e perdidos que eles.

E, como sempre digo, a arte imita a vida (e não o contrário), pois na vida real, nos deparamos com histórias tão macabras quanto esta do romance de McEwan, como por exemplo a história verídica, que rolou na mídia pouco tempo atrás, do austríaco que aprisionou num porão e abusou sexualmente da própria filha, durante 24 anos.

Outro sinistro romance do autor, “The comfort of strangers” (no Brasil, “Estranha sedução”), foi cinematografado nos anos 90 e tem Christopher Walken como ator principal, numa bizarra história de sadomasoquismo.



Por isso insisto em repetir, a vida (e o cinema) tem muito mais que cinquenta tons de cinza. É uma pena que as novas gerações sejam tão avessas aos livros e à literatura de qualidade. Não sabem o que estão perdendo, pois a leitura de romances como os de Ian MaCabro”, por exemplo, é extremamente prazerosa, além de instigante e algumas vezes aterradora.

E o cinema muitas vezes consegue transpor o universo da escrita para a telona com o mesmo primor. E cinema não é só entretenimento (para rir e se divertir, o lugar certo é o circo). Cinema é principalmente cultura, e não é a toa que é hoje considerada a sétima arte (mas, infelizmente, também produz muito lixo, pseudo-arte como este tom de lodaçal).

Para quem conseguiu curtir os “tons de cinza” (as adolescentes e algumas balzacas também) deixo um recadinho relevante e irreverente (que li, certa vez, de autor desconhecido) para os muitos “Grays” que andam soltos por aí: “Mulher vive de respeito e carinho. Dê-lhe em abundância. Se ela não receber de você, vai pegar de outro. Se você quiser ser um grande homem, tenha uma mulher ao seu lado, nunca atrás. Assim, quando ela brilhar, você vai pegar um bronzeado, mas se ela estiver atrás, você corre o risco de levar um pé-na-bunda”.


#Compartilhar: Facebook Twitter Google+ WhatsApp Linkedin Technorati Digg