Resenha: O amor nos tempos do cólera

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O padrinho de Florentino Ariza (…) se alarmou também à primeira vista com o estado de saúde do enfermo, porque tinha o pulso tênue, a respiração rascante e os suores pálidos dos moribundos. Mas o exame revelou que não tinha febre, nem dor em nenhuma parte e a única coisa que sentia de concreto era uma necessidade urgente de morrer. Bastou ao médico um interrogatório insidioso, primeiro a ele e depois à mãe para comprovar uma vez mais que os sintomas do amor são os mesmos da cólera.”

Ah, o amor! Sentimento nobre que em si carrega tantos outros. Imagine você: pelos derradeiros anos do século XIX, num dia qualquer na vida de um rapaz, seus olhos avistam o ser mais belo que um dia existiu e existirá. Coração dispara, pernas bambeiam, olhos brilham. Amor à primeira vista. Depois de intrépidas batalhas, momentos de tensão, dias de angústia e cartas perfumadas trocadas com o ser amado, anos passados com a morosidade de um exímio procrastinador, o objeto de seu desejo simplesmente o descarta como uma simples embalagem de biscoito. Coisas de corações jovens que nunca experimentaram a sensação de um amor não correspondido. Claro, para o pobre rapaz isso significa nada menos que o fim do mundo. Sim, isso é corriqueiro. Trivial. A história universal nos diz que há mais casos assim do que grãos de areia na terra. Porém, o que Gabriel García Marquez (Gabo para os íntimos) nos conta em “O amor nos tempos do cólera” vai um pouco além. Para ser mais exato, cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias. Que é o período em que o incansável Florentino Ariza espera pela oportunidade de mais uma vez tentar ter para si o amor de sua musa Fermina Daza.

Depois de vencer o Nobel de literatura de 1982 e de um recesso de um ano sem escrever, Gabo decide contar uma história de amor levemente baseada nas vidas de seus próprios pais. Sendo ele quem é, um dos maiores escritores do século passado, o autor de 'Cem anos de solidão' nos presenteia com um livro lindo, uma história digna de uma das mentes mais inventivas que a literatura já acolheu.

Somos apresentados logo no inicio da narrativa ao casal de velhinhos Juvenal Urbino e Fermina Daza, e vemos sua relação já nos dias finais, já que esposo morre logo no começo do livro. Justamente em seu velório, o paciente Florentino Ariza vê a oportunidade que tanto ansiava e se declara mais uma vez à sua amada, agora viúva. A partir daí a narrativa não obedece a cronologia dos fatos, ela vai e vem ao longo de cinquenta anos, e acompanhamos o "casal" Florentino e Fermina nos momentos mais relevantes de suas vidas.

Será que o amor não correspondido resiste ao tempo? Gabo nos mostra que sim. Em meio a surtos de cólera pela cidade e paixões ardentes (ou você pensou que Florentino não satisfaria sua fome carnal?), o amor incondicional de Florentino Ariza nunca esmoreceu, e apesar de ver sua amada noivando, tendo filhos, vivendo vida de senhora casada, ele, o amor, nunca o abandonou por um só instante. O realismo fantástico, tão presente em todas as obras do Gabo, aparece aqui exatamente como o amor intangível, que extrapola todos os limites do bom senso e manda às favas o egoísmo, e, porque não, o amor-próprio. E isso com a maestria que só o autor colombiano é capaz de realizar, fazendo uma história que tinha tudo pra ser inacreditavelmente triste, se tornar, de forma quase poética e tipicamente latina, uma belíssima história de amor.

Para alguns, esperar meio século pelo amor de alguém pode parecer loucura, algum distúrbio mental, talvez, mas, lendo o livro isso sequer passa na cabeça do leitor, tendo em vista as tantas outras micro-histórias dentro da narrativa, como a viagem nunca concluída de Florentino, assim como a perda de sua virgindade com uma mulher que ele nunca viu o rosto ou sequer tem certeza de seu nome. Ou suas paixões, desde Ausência Santander até a célebre viúva de Nazaret, sendo o caso dessa última o mais interessante. “Florentino Ariza a despojara da virgindade de um casamento convencional, mais perniciosa do que a virgindade congênita e a abstinência da viuvez. Ele lhe ensinara que nada do que se faça na cama é imoral se contribui para perpetuar o amor. E algo que havia de ser desde então a razão de sua vida: convenceu-se de que a gente vem ao mundo com as trepadas contadas, e as que não se usam por qualquer motivo, próprio ou alheio, voluntário ou forçado, se perdem para sempre. O mérito dela foi torná-lo ao pé da letra”.

Certamente um dos melhores livros de Gabriel García Marquez. Pra quem nunca o leu, aqui está uma bela oportunidade de adentrar nesse mundo de realismo fantástico que tanto encanta gerações de leitores. Um livro que fala do amor acima de tudo. Apesar de tudo. Distância, tempo, e toda e qualquer barreira que a vida possa construir. Até a cólera.

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