▕ Wagner Williams Ávlis*
▉ ▊ ▋ ▍ ▎Sinopse
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▉ ▊ ▋ ▍ ▎Análise
O que está no fundo é muito maior do que o que está no meio.
Essa é a grande moral da duologia “Batman
Contra o Monge Louco”, primeiro conto de teor sobrenatural do Cavaleiro das
Trevas ao estilo thriller das pulp fictions e que revela ao leitor a
coexistência da tecnologia com forças paranormais que pairam sobre a natureza,
num clássico conflito entre ciência e magia, pensamento científico e pensamento
mítico. O maior detetive do mundo descobre, por acidente, a existência de
naturezas outras, oculta na natureza presente capaz de sobrepujar qualquer
delas, podendo, inclusive, alterar o curso da vida, da História, da própria
realidade; uma horripilante constatação de que o que os sentidos percebem e a
razão decodifica não passa de uma “radiação de fundo”, a ponta do iceberg, uma
camada em meio a camadas, a grande certeza do mistério, o que está no fundo é
muito maior do que o que está no meio.
Em “Batman Contra o
Monge Louco” estão contidos os elementos dos antigos contos de terror gótico:
a onipresença da noite, a influência da lua cheia, a fortuna[1]
e a virtù, o fator sobrenatural, a
licantropia[2],
o herói-caçador, o vilão-presa, a vítima principal feminina, a femme fatal. O herói-caçador é Batman, o
vilão-presa é um enigmático monge paranormal, a vítima principal feminina é
Julie Madison, noiva de Bruce Wayne, a femme
fatal é Dala, sequaz do monge. Temos assim um típico bloco de personagens
do terror distribuídos em pares interagindo no enredo, um “casal do bem”, um
“casal do mal”, e portanto uma melhor coadjuvação com a presença de personagens
femininas. No plano da composição é necessário dizer que esse arco foi uma
pioneira experiência de roteiro em parceria. Gardner Fox com Bill Finger, os
melhores roteiristas da DC na época (junto com Jerry Siegel), são os
roteiristas no trabalho conjunto, um trabalho, há de se dizer, não tão
bem-sucedido. A julgar pelas convenções dum gênero recém-surgido e incerto como
foi o quadrinho de super-herói nos anos 1930, o enredo revezado – uma novidade
arriscada até então – haveria de ser uma experiência sujeita a erros em meio a
acertos; seus erros são furos de continuidade e vazios lógicos que delatam uma
parceria, embora dinâmica, dessincronizada. O enredo não explica nem justifica
✓ como Julie Madison conheceu/se tornou noiva de
Wayne, descomprometido até edições atrás;
✓ para quê o casal esteve em Nova York[3];
✓ o motivo de Julie ser a obsessão do Monge
Louco;
✓ como o médico Trent foi hipnotizado e até a
que distância a hipnose do antagonista exerce efeito;
✓ como Bruce Wayne conciliou sua
dupla-identidade para com Julie Madison no cruzeiro durante a viagem a Paris,
se Batman esteve o tempo todo a seguir o navio em seu helicóptero;
✓ a partir de quais pistas Batman investigava o
paradeiro do monge na Hungria;
✓ se Julie Madison, após ser mordida por Dara,
tornou-se uma vampira;
✓ e qual o paradeiro do Monge Louco no fim.
Em compensação, a criativa intertextualidade da dupla de
autores fala melhor e mais alto, já que compõe um thriller
rico
em referências. Eles concebem o segundo veículo para o Homem-Morcego, o
batgiro, uma homenagem ao russo-americano Igor Sikorsky (1889-1972), engenheiro
de aviação, projetista do helicóptero com rotor Vought-Sikorsky VS-300, que
voou pela primeira vez em 1939, ano da HQ[4];
concebem também o quinto apetrecho, o batarangue, inspirado na popularização
que o artefato ganhou na América após a imprensa internacional fotografar os
aborígenes australianos, inventores do bumerangue, em pose de lançamento da
arma[5].
O batgiro e o batarangue funcionariam como extensões do corpo do Batman em
ação.
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Um aborígene australiano com seu bumerangue fotografado em 1920. |
Gardner Fox e Bill Finger realizam ainda um dos primeiros crossovers nos
quadrinhos entre lobisomem e vampiros – antecipando essa tendência no cinema de
fantasia, hoje rotineira –, realizam uma zoopeia[6],
jornada de confrontos com animais, como pastiche de zoopeias na Literatura
Universal; no primeiro estágio do desafio o Vigilante de Gotham é refém num
calabouço de serpentes, como ficaram alguns heróis, Sherlock Holmes em A Faixa Malhada (1892), de Arthur Conan
Doyle, Tarzan, Zorro, Buck Rogers, Morcego Negro-I, Doc Savage, O Fantasma; no
segundo estágio Batman tem de enfrentar um gorila selvagem hipnotizado,
lembrando um pouco o caso do detetive Auguste Dupin em Assassinatos na Rua Morgue (1841), de Edgar Allan Poe; no terceiro
estágio do desafio o Cavaleiro das Trevas é lançado numa cova com as matilhas,
próximo ao que ocorreu ao profeta judeu Daniel na cova dos leões no Antigo
Testamento bíblico (Dn 6,1-28). Por fim, Gardner Fox e Bill Finger exploram o
folclore europeu das lendas do lobisomem e do vampiro nos antagonistas da HQ, haja
vista o Monge Louco ser um lobisomem em trajes eremitas, e Dala, sua comparsa,
ser uma vampira disfarçada de dama socialite. Aqui cabem algumas ressalvas.
Para a faixa-etária de leitores da época, o discurso de ódio do Monge Louco é
algo chocante, similar à hediondez da fala de psicóticos sanguinolentos:
– [Dirigindo-se
a Batman paralisado sob efeito hipnótico] Dentro
deste poço, que estará repleto de lobos famintos, você será despedaçado. Você
será jogado na arena abaixo para morrer em suas presas. Quando estiver
agonizando até a morte, lembre-se de que Julie será um lobisomem em breve, e
correrá pela noite com a matilha! (p.59).
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A zoopeia travada pelo Cavaleiro das Trevas: serpentes venenosas, gorila descontrolado, lobos famintos. |
Logo após
essa fala o antagonista se transforma em lobo, corre e uiva para outros lobos,
convocando-os para a carnificina. Alguns críticos quadrinísticos, como Les
Daniels (1943-2011) em Batman The
Complete History (1999), afirmam que o tom celerado do monge é para mostrar
seu ódio contra a condição humana, conotando que o líder da seita não é um
homem nem um homem-lobo, mas um strigoi[7], almas atormentadas dos mortos com a
capacidade de transformação num animal (morcegos, ratos, gatos, lobos, cães,
sapos, cobras, lagartos, aranhas), de invisibilidade, e a tendência para escoar
a vitalidade das vítimas através da perda de sangue, um tipo de vampirismo,
dado que o faz igual à Dala, que é vampira. Isso mudaria a interpretação final
do conto, pois o idoso careca baleado que dormia no caixão ao lado do caixão de
Dala seria o Monge Louco, morto pelo super-herói. Les Daniels também faz
questionar o motivo por que Fox e Finger fazem dum monge um monstro e duma dama
uma vampiresa. Seria uma crítica social indireta – no estilo da fábula, que
transforma homens em personagens-tipo como animais – para dizer que há monstros
por trás das aparências mais fraternas, como as de um sacerdote, e que a alta
sociedade burguesa não passa de um parasita?
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Metamorfose do Monge Louco em meio a um discurso celerado, considerado escandalizante para os leitores da faixa-etária de 7 a 15 anos em 1939. |
No plano da estrutura, o conto atravessa os ambientes urbano e
campestre, uma forma de dizer que o eterno conflito entre o natural e o
sobrenatural é universal e se dá no tempo e no espaço. Na Detective Comics #31
a primeira parte da história é urbana, se passa em Nova York e Paris, nos
moldes das pulps; a segunda parte, na Detective Comics #32, a história é
campestre, se passa num vilarejo de Cathala (a meu ver uma figuração da montanhosa
e castelã Köszeg), à beira do rio Dess (a meu ver uma figuração do Rio Danúbio)
na Hungria[8]
nos moldes dos contos góticos. O conflito do pensamento mítico – com sua
manipulação das forças ocultas – e do pensamento racional – com sua manipulação
da tecnologia – se desenrola com um recurso de antinomia[9],
ressignificando quão antinômica é a realidade; Batman, o herói que representa a
ciência, é visto como um ser metafísico, uma entidade espiritual, um demônio; o
lobisomem eremita, o vilão que representa o ocultismo, é um monge, visto como
um ser imanente, poderoso. Nos dois personagens recai a sombra do mistério e do
temor, e a antinomia divisa um pouco os primeiros embates entre ciência e
mística através da História.
Frases
caracterizadoras dos dois personagens durante a trama
|
|
Batman
|
Monge Louco
|
– Olhem!
– Um morcego [gigante]!
– É o fim do mundo! (p.45)
|
– Eu fui enviada
pelo mestre monge (p.42).
|
“A estranha criatura é vista por toda a Paris...”
(p.47)
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“Ao
se desviar do batarangue o monge perde o controle sobre o adversário...”
(p.46).
|
– Mon Dieu!
É o demônio! (p.47)
|
– Quer saber onde
o monge está? Você o teme? Bem, eu também (p.56).
|
“Assim que um potente automóvel parte em direção à
Hungria, a sombra do morcego o persegue” (p.50).
|
–
Seu tolo! Querer se colocar contra o poderoso monge (p.58).
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“Como um animal observando sua presa, ele [Batman]
espreita seu inimigo” (p.53).
|
Ainda
dentro do recurso de antinomia existe um “conflito quiróptero”, morcego contra
morcego, já que Batman é um tipo de morcego humano, e Dala, a comparsa do Monge
Louco, é uma vampira. Nesse ponto, a trama mostrará que o traditivo conflito
entre magia e técnica se dissipará e se mesclará, já que para derrotar a
vampira Dala e sua horda vampiresca o Homem-Morcego forjará balas de prata a
partir duma peça prateada – como reza a lenda –, o único artefato capaz de
ceifar a vida de lobisomens e vampiros. É quando Batman pega em arma de fogo e,
pela quinta vez consecutiva, tira a vida de seus inimigos. A frase-epílogo dos
dois contos (em Detective Comics 31 e 32), o “the end”, aparece subscrita num
desenho de pergaminho e em latim “finis” (“fim”);
funciona como uma simulação de um cólofon[10],
muito comum para encerrar manuscritos incunábulos[11]
antes da prensa móvel de Gutenberg. Isso significa que Gardner Fox e Bill
Finger quiseram fazer dos dois contos uma história gótica como que em
pergaminhos do tipo incunábulo medieval, como era típico na literatura e no
folclore europeu antes da imprensa; uma nítida demonstração de total
conhecimento de causa dos autores, fazendo cair por terra a crença de que os
primeiros roteiristas de HQs do gênero heroínico na Era de Ouro (1938-1956)
escreviam de modo infantil, simplista e aleatório, sem se pautar no conhecimento
de outros campos ou gêneros textuais.
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Nas pulp fictions de terror, um monge como personagem "louco" ou uma seita, numa mescla de ocultismo e alquimia, era recorrente. Sua vítima principal era sempre uma mulher jovem e virgem. |
“Batman Contra o Monge
Louco” é o que chamo de “conto fundador”, aquele tipo de história
que é matriz para outras histórias ligadas a ela na mesma mídia, seja com um
retcon, um remake ou um reboot. O conto de Fox e Finger funda batcontos
posteriores associados a essa temática do sobrenatural e aos mesmos arquétipos
lendários, como em Detective Comics #515 (1982), onde Gerry Conway faz um remake desse mesmo conto, Um Conto de Batman: Lobisomem
(1995), de James Robinson/John Watkiss, Batman
& Drácula, Chuva Rubra (1991), Tempestade
de Sangue (1994), Bruma Escarlate
(1999), as três por Doug Moench/Kelley Jones, Conspiração (1996), de Doug Moench/J.H. Williams III, e, mais recente, o remake Batman Contra o Monge Louco (2006), de Matt Wagner, saído no título
da Panini Batman Extra 4-5 (2007). É
pois um conto intertextualmente imorredouro, apesar de seus furos, seu
minimalismo. Contudo, posso arriscar dizer que a junção desses furos com a
temática do sobrenatural é o que fez o conto carregar sobre si a sombra
inquietante da dúvida e a certeza de que a técnica não responde a tudo. Há mais
no mundo, coisas que a razão não consegue explicar, “há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que foram sonhadas na
sua filosofia” – disse Shakespeare pela boca de Hamlet a seu colega Horácio.
O que está no fundo é muito maior do que o que está no meio.
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Edições subsequentes de mesma temática ou com personagens similares derivadas de "Batman Contra o Monge Louco", um exemplo no batverso de conto fundador. |
____________________________________
(*) Professor de Língua
Portuguesa, Literatura Brasileira, Redação, escritor da Academia Maceioense de
Letras, articulista de imprensa. Nas horas vagas, é historiador do
Homem-Morcego.
[1]
Fortuna e virtù são conceitos da ciência política elaborados pelo sociólogo
italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527), depois adaptados para a literatura dos
gêneros de horror/terror. A fortuna
diz respeito às circunstâncias, ao tempo presente e às necessidades, a sorte
individual; é a ordem das coisas em todas as dimensões da realidade que
influenciam a história. A virtù
trata-se da capacidade de controlar as ocasiões e os acontecimentos em seu
favor, capaz de sobrestar as dificuldades impostas pela imprevisibilidade da
história.
[2]
Distúrbio onde o indivíduo pensa ser ou ter sido transformado em qualquer
animal. No folclore, capacidade ou maldição caída sobre uma pessoa que se
transforma em um lobo. O termo “licantropia” vem de Licaão, rei da Arcádia no
tempo de Cécrope-I, rei de Atenas. Segundo a mitologia grega, devido as suas
aberrações violentas, Licaão foi transformado por Zeus em um lobo, derivando
daí todas as lendas relacionadas a lobisomens.
[3]
Nesse ponto se mantém uma antiga discussão ainda fora do consenso entre
historiadores e críticos do personagem. Para uns, a Nova York que ambienta os
primeiros contos do Homem-Morcego é Gotham City, alcunha que a Big Apple
recebera no séc. XIX pelo escritor Washington Irving – autor da "Lenda do
Cavaleiro Sem Cabeça"–, em referência a uma cidadela inglesa reduto de
loucos. O nome “Gotham City” só passaria a ser corrente nas HQs em Batman # 04
(1941). Para outros, a Nova York nos quadrinhos do Batman é a New York City,
capital do estado de Nova Iorque, e não Gotham, que até 1941 nunca era
mencionada nas HQs, ficando no mistério da mesma forma que seu vigilante. Décadas
depois, a canonicidade do batverso estabeleceu que Gotham City fica no Estado de Nova Jersey, o que parece confirmar a segunda teoria.
[6]
Zoopeia é uma composição semiótica em prosa narrativa em que um clímax é controlado
por um vilão, onde se apresentam níveis de obstáculos representados por animais
ou criaturas bestiais que o herói deve superar.
[8]
A Hungria, da época do império Austro-Húngaro, foi um dos países disseminadores
das lendas do lobisomem e do vampiro (ver Wikipédia – A Enciclopédia Livre.
“Vampiro, etimologia”. Isso prova que os roteiristas Gardner Fox e Bill Finger sabiam o que estavam
fazendo; compuseram um enredo após algum levantamento de pesquisa sobre o tema.
[9]
Contradição entre dois princípios.
[10]
Cólofon designa a nota final de um manuscrito ou de um livro impresso. As
palavras “fim” ou “finis” e também “Laus Deos” (“Deus seja louvado”), após a
conclusão de um texto, podem também ser consideradas colofões. Cf. Wikipédia –
A Enciclopédia Livre. Cólofon .
[11]
Incunábulo é um livro impresso nos moldes de um pergaminho medieval nos primeiros tempos da imprensa com tipos
móveis. Cf. Wikipédia – A Enciclopédia Livre. Incunábulo .