O cinema quebrando regras e tabus (mulher machista é f... !!!)

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Mais uma vez fui pivô de um mal entendido, tudo por conta do meu eterno estilo “Garota Rosa Shocking”. Para quem não conhece, esse é o nome de um filme antigo, da década de 80/90, que conta a história de uma garota que se veste de “bordados e rendas”, numa era em que as mulheres já começavam a se vestir “algo periguete”.

“Vira e mexe” alguém me nomeia com este título (perdi a conta de quantos já me compararam com a personagem do filme), porque mesmo com o passar do tempo (tanto para mim como para o filme) eu ainda continuo me vestindo (sempre que a idade e a moda permitam, óbvio, fazendo jus ao meu outro apelido, de “fashion”) com rendas, bordados, chapéus, flores e arcos na cabeça, botas e meias, saias com pregas (bem ao “estilo colegial”), algo quase “moleca de ser” (e sempre me vesti desse jeito, antes inclusive do filme ser lançado na época).

No filme, a tal “garota de rosa shocking” (“Pretty in pink”), com seu jeito peculiar de se vestir (e de se comportar), “mexe” com o imaginário dos homens,  desde o “boa pinta” da escola (o ator Andy McCarthy) até o tímido “nerd” (o então jovem ator Jon Cryer, atual personagem quarentão Alan do sitcom “Two and half man”, está hilário no papel, imitando Otis Redding, com a música Try a little tenderness) passando também (nenhuma novidade) pelo “playboyzinho galinha” (o ator James Spader), que fica possesso porque a garota simplesmente o ignora (e é o que eu sempre faço também).



Como eu sempre curti este tipo de roupa, e o meu comportamento é ainda o mesmo, ou seja, “das antigas” , tal qual a garota do filme (não que eu pareça fisicamente com ela, sou morena, ela é ruiva), parece que eu vivo eternamente no imaginário masculino (em relação ao velho “ideal feminino”), e acabo me tornando alvo de “amores platônicos” e/ou “paixões avassaladoras” por parte dos mais variados tipos de homens (como no filme) e, por conta disso, também sou alvo fácil de intrigas por parte das mulheres (porque parece que as “periguetes” não aceitam muito isso), assim eu tive que aprender a me “defender” desde cedo (dos dois lados, principalmente em relação aos “galinhas” e às “periguetes”).

Quanto aos “homens galinha”, não é preciso nem explicar. E, ao que parece, não agrado muito à “tchurma das periguetes” (o mal entendido parece que veio de uma delas), pois apesar de elas usarem de todo o “sex-appeal” para conquistar o sexo oposto, o que tem acontecido é o efeito inverso, ou seja, a quantidade de periguetes na noitada é tanta (e a oferta de sexo sem compromisso, idem) que os homens parecem cansados de tanta facilidade (e nem sempre os homens estão atrás de sexo, até porque transar virou “mercadoria” facilmente adquirida em qualquer noitada, nos dias de hoje).

Eu detesto o “estilo periguete”; por exemplo, roupas com “estampas de onça” não entram no meu armário (no máximo pode ter um detalhe discreto no cinto ou na sandália) – aliás, uma ótima piada, sobre o tema, do jornalista humorístico José Simão: o irreverente “macaco” Simão pergunta “qual o maior desejo (de consumo) de toda onça?”. E responde: “o maior sonho de consumo de toda onça é ter uma roupa de puta”, kkk – é mais ou menos esta a minha associação com este tipo de roupa, rsrs.



Quanto ao mal entendido – há pouco tempo, ao sair à noite, primeiro num show de rock e depois numa boate com um grupo de amigos (homens e mulheres), esticamos eu e mais três amigos homens (eu a única mulher do grupo) para darmos umas boas risadas após um “estresse” que um deles passou na tal boate; e dias depois vieram me contar (nos bastidores”) que uma fulana (que, pelo visto, devia estar “dando em cima” de um dos meus amigos) andou espalhando que eu “tinha saído sozinha da boate com um dos três amigos”, e que eu “não me mancava” pois o tal “era bem mais jovem que eu”, e blá blá blá...

Dá para imaginar a baixaria contida no tal “blá blá blá”? Cinéfila que sou, só pude gargalhar diante do boato maldoso (homem machista é f... mas mulher machista é o fim da picada), pois me fez lembrar um episódio do divertido sitcom “Seinfeld”, em que rola um papo hilário contendo o famoso “yada, yada, yada” (equivalente ao nosso blá, blá, blá).



Primeiro, eu não saí sozinha com o tal (e, se tivesse saído, o problema era meu e dele, pois somos os dois descompromissados); segundo, se o tal quisesse sair de lá com a fulana (a então jovem despeitada) nada o impedia, mas se ele preferiu sair de lá comigo...; como diria uma amiga minha: “só lamento por você, queridinha”.

O que a fulana não entende é que eu não preciso usar “sex-appeal” para conquistar os homens, eles me procuram espontaneamente, gostam do meu jeito, como me visto e me comporto (totalmente diferenciado das muitas mulheres das noitadas), mas apesar das roupas românticas, não faço o gênero “dondoca” (por exemplo, nem mesmo uso esmaltes nas unhas, e quando uso maquiagem é bem discreta, a não ser batom diariamente, aliás, eu detesto salão de beleza).

E sempre tive uma “linha direta” com o sexo masculino em todos os âmbitos (não só no sexual) por ter convivido com três irmãos e dois filhos homens e também por conta da minha profissão ainda predominantemente masculina (cardiologista), assim parte da minha vida sempre lidei com o sexo oposto, e assim aprendi a respeitá-los e a exigir respeito por parte deles, numa via de mão dupla (por exemplo, não traio e jamais aceito ser traída).

E, mais do que isso, os homens curtem muito o meu papo, pois apesar das roupas algo românticas, sou irreverente e “brigona” (daí o meu outro apelido, “adorável anarquista”). E transito muito bem pelo mundo masculino, desde o universo dos jovens (adoro “nerdice de adolescente” como super-heróis e quadrinhos) até os lendários vovôs pois passeio com desenvoltura por vários assuntos dos anos 20/30 (inclusive filmes antigos em preto e branco), e eu conheço octogenários muito mais antenados com o mundo do que muitos jovens petulantes e alienados (só não tenho paciência para falar de futebol porque é um papo já saturado e não vejo mais graça no esporte, desde que o mesmo virou palco de atletas mercenários e sem escrúpulos).




Um grande problema é realmente a minha idade, pois como aparento ser bem mais jovem do que sou, tanto fisicamente como pelo meu estilo, eu tenho grande dificuldade para encontrar alguém da minha idade, antenado no que eu gosto, e os homens da minha idade sempre acham que eu sou bem mais jovem do que realmente sou. Não que eu me incomode em parecer naturalmente mais jovem (muito pelo contrário), mas é sempre complicado isso, em matéria de relacionamento, portanto tento sempre não me envolver com pessoas mais jovens do que eu, mas nem sempre dá para evitar.

Assim, dias depois de saber da tal fofoca maldosa sem “pé nem cabeça”, e ainda fula da vida por ter “levado fama sem rolar na cama”, e um tanto quanto com a minha autoestima abalada (tenho-a sempre em alta, mas às vezes não é fácil manter a auto-estima quando querem nos atingir de alguma maneira, principalmente com mentiras em relação a nossa moral) fui num bar com amigos, e um cara que parecia ter a minha idade começou a me olhar insistentemente, e eu comecei a corresponder à paquera.

Mas a coisa ficou nisso, não rolou, e então eu já me preparando para ir embora e me dirigindo ao balcão para pagar minha conta (enquanto esperava pelos amigos) percebi um olhar insistente em minha direção. Achando que poderia ser o tal cara da minha idade, olhei de volta, e qual minha surpresa era um jovem rapaz (bastante charmoso) que me encarava com um jeito “algo desesperado”, fazendo sinal se podia se aproximar, gesticulando e pedindo o número do meu celular.

Como continuava a insistir, deixei que se aproximasse, e descobri então que o tal estava a me olhar por toda a noite, e eu simplesmente não percebi nada, até porque ele estava numa mesa cheia de rapazes bem mais moços do que eu, não tinha como eu achar que algum deles estaria interessado em mim (apesar de não ser a primeira vez que isto me acontece, tanto na rua, em bares, no trabalho), e insistiu que eu lhe desse o número do meu telefone, já que eu já estava me retirando (daí o seu “desespero”, se perdesse a oportunidade de falar comigo).

Ou seja, eu tento fugir de relacionamentos com homens mais jovens, mas não sou eu que os procuro. Daí, nos encontramos dias depois, mas já estou caindo fora, não por conta da diferença de idade, e sim porque não estamos tendo muita sintonia – talvez porque, ainda indignada por conta do “yada, yada, yada”, eu tenha dado chance para ele apenas para provar, para mim mesma (e, indiretamente, para a jovem despeitada e mal amada), que a diferença de idade não tem nada a ver, e que são eles os homens que me procuram e não o contrário.

E como a arte imita a vida (e não o contrário) e como “tudo na minha vida me leva ao mundo do cinema”, deixo a lembrança de dois belos exemplos deste “fetiche” de jovens rapazes por mulheres mais velhas e mais experientes, cansados muitas vezes de lidar com jovens imaturas, problemáticas e mal resolvidas.

Em “Summer of 45” (“Houve uma vez um verão”) um jovem adolescente, durante as férias de verão, se apaixona por uma bela mulher madura cujo marido encontrava-se em serviço como piloto na segunda grande guerra, e o jovem rapaz vai descobrir os segredos do sexo e do amor nos braços da tal mulher (então triste e carente ao descobrir o marido morto em batalha). A bela trilha sonora instrumental, assinada pelo maestro Michel Legrand, levou o Oscar de melhor canção em 1971.



E em “Ensina-me a viver” (“Harold and Maude”) temos a comovente e irreverente história de amor entre um jovem que acaba de sair da adolescência e uma senhora "do alto dos seus setenta e tantos anos". Ousadíssimo para a época (década de 70), o diretor foi magistral, pois não deixou a relação do casal num campo platônico, ao contrário, o diretor não poupou nas cenas de beijo na boca e insinuações de sexo entre o peculiar par romântico, cuja química que rola entre os dois personagens é inesquecível, e o filme continua atual até hoje, pois desafia estes tabus de sempre, como idade, sexo, envelhecimento e morte.

O filme é um “cala-boca” (inclusive para mulheres machistas como a tal jovem despeitada) nessa contracultura de que só a juventude é capaz de vencer barreiras, e que só é dado aos jovens o direito a felicidade e ao amor, e aos mais velhos só restaria o embotamento físico e mental, a ponto de as pessoas não mais quererem envelhecer (hoje as pessoas estão ficando “marmorizadas”, com caras “botocadas”, “esculpidas em cera”, sem expressão, com as famosas e não menos ridículas “bocas de peixe”, tal o retoque artificial para acabar com as factíveis, antes bem-vindas, rugas).

Nesse filme, ao contrário, quem exala vitalidade, energia e “anarquia” é a personagem setentona Maude, uma sobrevivente dos campos de concentração nazista (sutilmente denunciada por um número tatuado em seu braço) enquanto o jovem e rico Harold é quase um “zumbi”, tal a fixação pela morte, que ele ensaia em falsas (e prá lá de hilárias) tentativas de suicídio, com o objetivo de chamar atenção de sua fria e distante mãe. Por motivos totalmente opostos, eles vivem em cemitérios e indo a enterros de desconhecidos, onde acabam se conhecendo.

“Ensina-me a viver” é um verdadeiro ensinamento da importância da vida (e da aceitação do fatídico envelhecimento e da infalível morte) com esse casal e sua estranha, mas divertida e irreverente, história de amor. E a trilha sonora quase exclusiva do Cat Stevens com sua voz envolvente e inconfundível é uma atração à parte – “Don't be shy”, “Where do the children play?”, “On the road find out”, “Trouble”, “If you want to sing out”. 



Para fechar o texto: o que me deixa fula da vida é que, ainda nos dias de hoje, o machismo ainda impera, e pior, por parte de mulheres também machistas, pois se fosse o contrário, ou seja, uma mulher mais jovem se envolvendo com um cara mais velho, ninguém criticaria ou acharia estranho – e para  colocar por terra esta falsa lógica matemática machista de que é “mais normal um homem mais velho com uma jovem do que o contrário, tem uma boa piada para isso, digna do humor jornalístico e irreverente do macaco Simão:

Um professor de matemática envia à sua mulher uma mensagem: Querida esposa, agora que tens 54 anos, já não podes me satisfazer plenamente. Assim, espero que me compreendas, chegarei em casa só à meia noite pois estarei com minha secretária de 18 anos num motel. Ao chegar em casa encontra a seguinte carta da esposa: Querido marido, não se esqueça que você também tem 54 anos, e portanto estarei com o meu personal trainer de 18 aninhos também num motel, só que há uma pequena diferença entre nós dois, que você, como matemático, vai entender facilmente: 18 entra muito mais vezes em 54 do que 54 em 18. Portanto, não me espere, só chegarei amanhã” (precisa de mais explicações para esta lógica, que vai muito além da matemática em sikkk).

E aproveito para deixar um pouco mais da irreverência do humor jornalístico do macaco” José Simão.


Para concluir este meu texto (que surgiu da minha indignação diante do preconceito e do machismo feminino) – como carrego, dentro de mim, uma eterna criança que nunca deixo envelhecer, termino com a bela música “Velha infância” e, sonhadora como sempre fui, ainda tenho esperança de que, quem sabe um dia, um amor platônico se torne um grande amor na minha vida (“o meu melhor amigo é o meu amor, o meu riso é tão feliz contigo”) com os tribalistas Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes.





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