Coraline, de Neil Gaiman

(Capa do livro pelo selo jovem da editora Rocco.)
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Seria ingênuo perceber Coraline, de Neil Gaiman, como mera releitura do perturbador Alice no país das maravilhas, clássico da literatura infantil, do absurdo e de imaginação de Lewis Carrol. Assim como seria redutor ver ambos os livros como literatura direcionada necessariamente a crianças e pré-adolescentes. Quero falar especificamente do caso do livro de Gaiman.
Gaiman, recriador genial do personagem Sandman (DC/Vertigo) e de todo um universo complexo que o rodeia, incluindo o detive acanalhado e com ares de filme noir do mundo espiritual John Constantine (na minha humilde concepção uma espécie menos heróica de Spirit, o famoso detetive de são Will Eisner, num ambiente mais pesado), parte de alguns detalhes em comum com o livro de Carrol, mas também em comum com o imaginário popular, como, por exemplo, o gato como condutor dos mundos subterrâneos. Mas o mundo paralelo visitado pela pequena Coraline consegue ser mais sombrio e pesado, enquanto Alice se movimenta num universo potencialmente lisérgico. Mas a numeração dos capítulos nos dois livros (sim, esse tipo de coisa também é referencial) chamou minha atenção especialmente. Alice no país das maravilhas encerra no capítulo XII. Coraline, no XIII. Não fossem os outros elementos semelhantes, a comparação se mostraria pífia e inválida, mas os elementos de proximidade embasam o que quero dizer: Carrol não faz uma transição confortável entre o fim da alucinação e o começo da realidade (não se preocupe, leitor, não se trata de um spoiler, já que a narrativa é conhecida de todos, mesmo, que Jah nos perdoe, via Disney). Pode até se imaginar que Carrol quis evitar o número XIII, por todo imaginário de azar que corre ao redor dele: no tarôt de Marselha, lembrem-se disso, meninas e meninos, o número XIII corresponde ao Arcano Maior Morte (que no egípcio corresponde à ressurreição, e voltarei a isso). [Quanto a falar de literatura a partir do tarôt, bem, tratam-se de símbolos, e falo de dois escritores que tocam profundamente o universo imaginário e profundamente simbólico.] O número XII, por sua vez, corresponde ao Enforcado, sinônimo sobretudo de indecisão (parto de leituras simplificadas). Isso tem a ver muito com a conclusão de Alice: o mundo adulto, embora bem saudado num futuro que não se enxerga, parece uma ameaça velada contra a qual é preciso se resguardar, e uma oculta infância eterna seria a solução para esse problema. No caso de Coraline, ao enfrentar o número XIII, e bem ao gosto de Gaiman, o elemento de ressurreição, que está contido mesmo na versão de Marselha, embora a força da palavra morte afaste um pouco essa ideia, é o que dá força ao personagem e faz com que ela vá além da narrativa, ao contrário do que acontece com Alice que de alguma forma fica presa na sua própria história, circularmente. Como isso acontece? Meus caros, eu disse que não daria spoilers.

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